O que nos trouxe até aqui
Cultura periférica, corpo negro e a cidade que não nos esperava

Por mais de quarenta anos, a periferia de Belo Horizonte fez sua própria história em quadras, vielas, viadutos e muros, erguida com o corpo, a voz e a mão.
A periferia que não estava no projeto
Belo Horizonte foi desenhada a régua, capital planejada que nasceu da vontade institucional e não do acúmulo vivo das pessoas. O projeto original não previa a periferia. Mas nenhum plano urbanístico controla onde a cultura explode. Por mais de quarenta anos, a periferia desta cidade fez sua própria história em quadras, vielas, viadutos e muros, e essa história responde a uma pergunta que o produtor Paulão, da equipe de Djonga, fez a si mesmo em 2020: como o rap de BH chegou aonde chegou? A pergunta vale para tudo que se ergueu aqui com o corpo, a voz e a mão.
O corpo, em 1983
O fio começa em maio de 1983, quando ‘Flashdance’ mostrou ao Brasil a dança dos guetos de Nova York. Em BH, na virada de 1983 para 1984, José Guilherme Ferreira, o MC Pelé, juntou outros jovens e formou a Break Crazy, uma das primeiras gangues de break da cidade, com roda na Savassi. A cultura hip-hop não chegou de São Paulo: chegou ao mesmo tempo, pelo audiovisual, em vários cantos do país, como mostraria décadas depois a pesquisa de Roger Deff. Antes de ter nome, era apenas o que a juventude preta e periférica fazia para existir inteira numa cidade que a ignorava.
O parlamento e o templo
Em 1986, MC Pelé organizou o BH Canta e Dança, festival que por onze anos reuniu de 20 a 30 mil jovens na Praça da Estação, a mesma por onde entrara a matéria-prima da construção da cidade e que agora recebia sua matéria-prima cultural. Quando ele morreu em 2009, aos 44 anos, quase não havia registro do que construíra. Enquanto a praça virava parlamento das palavras, a Quadra do Vilarinho, em Venda Nova, virava templo do corpo: aberta em 1982, chegou a reunir 3 mil jovens por domingo e pariu o funk mineiro, que desde o LP ‘Fábrica Ritmos’ (1992) nunca copiou o carioca nem o paulista. Em 2022, parte das quadras virou estacionamento.
A mão nos muros
Em 1987, Dentinho grafitou o primeiro muro de que se tem registro na cidade, inaugurando uma linguagem que se espalharia pela periferia. A pixação belo-horizontina construiu estilo próprio, com letras derivadas do gótico. Na virada dos anos 2000, os Piores de Belô assumiram de frente o estigma de uma cidade que os tratava como problema. Em 2010, cinco foram presos por formação de quadrilha às vésperas da Copa: a cidade precisava ser ‘limpa’ para o mercado. Goma cumpriu 117 dias de prisão preventiva, saiu, pegou um mapa e foi pixar todos os bairros. O sistema tentou. Não conseguiu.
O viaduto como casa
Em 2007, vinte pessoas se reuniram na chuva e, sem espaço, decidiram que o baixio do Viaduto Santa Tereza seria seu palco. Toda sexta, por dezoito anos, o Duelo de MCs ocupou aquele concreto e formou quatro gerações de rappers, até se tornar o maior duelo do gênero no mundo, sem aporte estatal permanente. Do Aglomerado da Serra saiu Douglas Din, único bicampeão da história do Duelo Nacional: o melhor improvisador do país não chegou apesar da periferia, mas por causa dela.
As que seguraram o chão
Esta história carrega um silêncio que precisa ser nomeado: as mulheres estavam em cada camada e quase sempre foram as últimas a serem reconhecidas. MC Ellu gravava funk feminino em 1992, antes de qualquer crítico nomear o gênero. Bárbara Sweet, Clara Lima e Colombiana enfrentaram não só o machismo da cidade, mas o do próprio movimento que as acolhia com uma mão e as empurrava com a outra. Hoje Colombiana comanda o palco do maior evento de freestyle do país. Não chegaram apesar das barreiras: chegaram através delas.
A cena que se globalizou
Em 2017, Djonga lançou ‘Heresia’, eleito disco do ano pela Rolling Stone Brasil; em 2020, foi o primeiro rapper brasileiro indicado ao BET Hip Hop Awards e à Forbes Under 30. Antes dele, FBC; depois, Chris MC e Sidoka. A cena de BH não produziu um nome: produziu gerações. Saiu do subúrbio para o mundo, sem que ninguém garantisse nada pelo caminho.
O que nos trouxe até aqui
A pergunta tem resposta, e ela não é o apoio do Estado. O que nos trouxe até aqui foi a teimosia de existir com alegria num lugar que projetava nossa invisibilidade; foi a memória construída mesmo quando ninguém queria registrá-la; foi a certeza, praticada sem palavras, de que cultura não é o que os formadores de opinião autorizam, e sim o que o povo faz quando está junto. A cena que o mundo reconhece hoje não é uma geração de gênios: é uma geração que encontrou o chão certo, erguido pelas mãos de quem veio antes e que o tempo insistiu em apagar.
Que este texto seja também um ato de memória, para que os nomes fiquem e os lugares não se percam quando viram estacionamento.