A tela não chega igual para todas as crianças
Infância, tecnologia e desigualdade antes da alfabetização

O debate sobre telas e educação apaga quem dispõe das condições estruturais para mediar a relação da criança com o aparelho e quem não dispõe.
A Suécia foi pioneira na digitalização do ensino. Em poucos anos, livros didáticos, cadernos e atividades impressas foram cedendo lugar a plataformas, aplicativos e dispositivos individuais. O país se tornara referência mundial para quem defendia a digitalização da escola como caminho inevitável do futuro.
Em 2023, o governo sueco fez o caminho de volta. Anunciou investimentos para reintroduzir livros físicos, ampliou a defesa da leitura em papel e passou a restringir o uso de telas, sobretudo na educação infantil e nos anos iniciais. A queda no PIRLS, exame internacional de compreensão leitora, havia confirmado o que professores e pesquisadores já sinalizavam: a digitalização acrítica prejudica o aprendizado. [1]
O fenômeno sueco não é isolado. Relatório da UNESCO registra que o número de países com alguma restrição ao uso de celulares em escolas saltou de sessenta para setenta e nove entre 2023 e 2025, com evidências de melhora na aprendizagem, na concentração e na redução do bullying, especialmente entre alunos de desempenho mais fraco. [2] Nesse mesmo período, a Prefeitura de São Paulo investiu seiscentos milhões de reais para distribuir quinhentos e cinco mil tablets a alunos da rede municipal, incluindo quarenta mil unidades para crianças da educação infantil. [3]
Para quem está na escola, a pergunta costuma chegar de modo prático: proibir, liberar, mediar? Mas antes da norma escolar há uma pergunta anterior. Que infância cada criança vive antes de chegar à sala de aula?
Dois apartamentos. Uma criança de sete anos. O mesmo celular. Escrevo como professor de filosofia e pai de uma criança de dois anos. A posição importa: quem acompanha de perto a primeira infância observa o problema de dentro, e é essa proximidade que autoriza perguntar de forma diferente.
O que o debate sobre telas e educação sistematicamente apaga é quem, neste país, dispõe das condições estruturais para mediar a relação da criança com o aparelho, e quem não dispõe. O que acontece com cada uma das duas crianças é radicalmente diferente, e a origem dessa diferença não está no dispositivo. Trata-se de uma política de classe e de raça sobre a infância, que opera sem se nomear e produz seus efeitos por omissão.
A estrutura que organiza a criança com a tela
O domicílio brasileiro encolheu. Por força de uma lógica imobiliária global que responde à valorização fundiária urbana, presente em Londres e Nova York tanto quanto em São Paulo e Belo Horizonte, os apartamentos do programa habitacional popular perderam trinta e seis por cento de sua metragem em duas décadas: de cinquenta e oito para trinta e sete metros quadrados. [4] O espaço de todas as classes foi comprimido. O que as diferencia é o que cada uma tem fora do apartamento para compensar esse encolhimento.
O apartamento rico é menor, mas está inserido num edifício com playground, piscina e salão de jogos, num bairro com rua caminhável e acesso a equipamentos culturais. O apartamento pobre está localizado em área periférica distante da malha urbana consolidada, e é aqui que classe e raça se articulam sem mediação: as periferias brasileiras são predominantemente pretas e pardas por razão histórica precisa. A organização racial do espaço urbano pós-abolição destinou as áreas centrais para a população branca e as margens para a população negra. Essa não é uma metáfora. É o mapa que o mercado imobiliário, o sistema de transporte e a política habitacional continuam reproduzindo.
A rua deixou de ser o território da infância preta e parda não porque as crianças ficaram preguiçosas, mas porque a rua ficou insegura, o espaço público ficou degradado, e o apartamento encolheu sem que nenhuma alternativa fosse construída no lugar do que a família não pode pagar.
Some a isso o tempo de deslocamento. Dezessete por cento dos trabalhadores pretos gastam mais de uma hora no trajeto até o serviço, contra dez por cento dos brancos. [5] Somada a jornada semanal de quarenta e quatro horas e o deslocamento de retorno, o trabalhador pobre pode estar fora de casa por doze horas ou mais diariamente. Quando chega, chega com o corpo esgotado.
Quem fica com a criança? Em grande parte dos domicílios periféricos, a avó. Frequentemente uma mulher negra que exerce, sem remuneração e sem reconhecimento formal, uma função de cuidado que o Estado não proveu e que a creche pública não substituiu. Ela está disponível, mas não necessariamente com energia e recursos para oferecer a interação que o desenvolvimento exige. A tela resolve a equação imediata: a criança fica quieta, está em segurança dentro de casa.
Pesquisa sobre primeira infância revelou que cinquenta e um por cento das famílias de alta renda relataram boas oportunidades de convivência com crianças durante a pandemia, proporção que caiu para trinta e três por cento entre as famílias de menor renda. [6] O tempo presente não é o mesmo que tempo disponível.
A principal cuidadora dessa criança é quase sempre uma mulher. Tratar o uso da tela nesse contexto como negligência parental é uma violência adicional sobre quem já carrega o peso que a estrutura despejou nos seus ombros.
O mesmo aparelho, dois mundos
A socióloga Annette Lareau, em pesquisa etnográfica com famílias negras e brancas, identificou dois modelos distintos de criação por classe social. Nas famílias de classe média, o "cultivo orquestrado": pais organizam ativamente o tempo livre dos filhos com atividades estruturadas, estimulam argumentação e relação com adultos em posição de autoridade. Nas famílias pobres e trabalhadoras, o "crescimento natural": pais proveem o necessário, mas deixam o lazer para a própria criança organizar. [7] Em termos práticos, o cultivo orquestrado produz vantagens cumulativas: a criança desenvolve o que Lareau chama de "destreza institucional", a facilidade de navegar regras, falar com chefes, entender hierarquias. É essa destreza que o mercado e as instituições valorizam, independentemente da capacidade intelectual.
A tela entrou exatamente no espaço que o crescimento natural deixava aberto. O tempo em que a criança preta e parda organizaria o próprio mundo, brincando na rua, inventando com os irmãos, convertendo o tédio em criação, passou a ser preenchido pelo algoritmo de recomendação. Só que o algoritmo não entrega o que o tédio entregava. Ele oferece estímulo infinito e retira da criança a necessidade de produzir o próprio mundo. O que parece liberdade é captura. É precisamente aí que emerge um terceiro modelo que Lareau ainda não precisou nomear: o crescimento algorítmico, em que a criança não é cultivada nem cresce por conta própria, mas é consumida como dado e como audiência.
As telas não são iguais. O celular é a única forma de acesso à internet para um em cada cinco crianças e adolescentes brasileiros. [8] A criança rica tende ao uso ativo: plataformas educacionais, jogos com agência, ferramentas mediadas por adultos presentes. A criança preta e parda da periferia tende ao uso passivo: TikTok, YouTube, reels, conteúdo de consumo infinito gerado por algoritmos projetados para maximizar permanência, não desenvolvimento. As plataformas não são neutras: foram construídas para capturar atenção por meio de loops de dopamina e scroll sem fim. Essa arquitetura é especialmente eficaz em cérebros em formação, e a criança que chega à tela sem mediação adulta, sem alternativas e com cuidadora exausta é a mais vulnerável a essa captura. A plataforma não distingue: extrai o valor da atenção de qualquer criança. O dano é maior em quem não tem os amortecedores.
O resultado se acumula. Crianças menores de cinco anos que passam mais de duas horas diárias diante de telas apresentam risco elevado de atrasos na linguagem e dificuldades de aprendizagem. [9] O mecanismo central é preciso: a tela substitui a interação verbal bidirecional com adultos, o principal motor do desenvolvimento da linguagem. A tela fala para a criança, mas não responde ao que ela fala, não adapta o vocabulário, não produz o intercâmbio que forma o pensamento e a atenção.
Acompanhei de perto o desenvolvimento de linguagem de uma criança de dois anos. O salto aconteceu quando a presença dos adultos aumentou, não pela escolha, mas pela circunstância. É precisamente isso que a estrutura rouba das famílias sem circunstância favorável.
A criança pobre, preta e parda chega à escola com menos palavras, menor capacidade de atenção sustentada, sem a destreza institucional de Lareau. Encontra uma escola pública subfinanciada, com professores sobrecarregados, sem condições de compensar esse déficit. O que começa como uma questão de tempo de tela é, na prática, a produção precoce de um teto de oportunidades. Não por incapacidade. Por condições.
David Nemer, em Tecnologia do Oprimido, dialoga com Paulo Freire para mostrar que tecnologia que não liberta oprime. [10] O debate brasileiro ainda não assimilou essa lição por inteiro porque insiste em tratar como problema técnico ou comportamental o que é, desde a origem, uma questão política: a organização da cidade, da moradia, do trabalho e do cuidado que determina quem pode estar presente com uma criança e quem não pode. Quando o problema é enquadrado como "os pais precisam limitar o tempo de tela", o resultado de uma política se converte em falha individual de parentalidade. É o movimento ideológico que Freire identificava como naturalização da opressão: o oprimido responsabilizado pelas condições que a estrutura produziu.
A tela na escola é o sintoma. A questão é o que a criança encontra quando sai dela: um apartamento de trinta e sete metros quadrados, uma rua insegura, um pai ainda no trânsito, uma avó exausta, nenhuma alternativa ao aparelho que está na palma da mão desde os dois anos de vida, enquanto dezenas de países retiram esse mesmo aparelho da sala de aula.
Isso se chama política de infância. Ou, com mais precisão: é a ausência dela.
Fontes
[1] Associated Press. “Sweden brings more books and handwriting practice back to its tech-heavy schools”, 2023. Ver também dados do PIRLS 2021 sobre compreensão leitora.
[2] UNESCO. Relatório Global de Monitoramento da Educação (GEM) 2023 e atualização especial de janeiro de 2025 sobre restrições ao uso de celulares em escolas.
[3] Prefeitura de São Paulo / Secretaria Municipal de Educação. Programa de distribuição de tablets e equipamentos da rede municipal, 2021-2024.
[4] Secovi-SP. Dados sobre metragem média de imóveis do programa habitacional popular, 2004-2024.
[5] IBGE. Censo Demográfico 2022: dados de deslocamento casa-trabalho por raça e faixa de renda.
[6] Instituto Alana / Pesquisa Primeiríssima Infância: Interações na Pandemia. Comportamentos de pais e cuidadores de crianças de 0 a 3 anos, 2021.
[7] LAREAU, Annette. “A desigualdade invisível: o papel da classe social na criação dos filhos em famílias negras e brancas”. Educação em Revista, UFMG, n. 46, dez. 2007. Original: Unequal Childhoods, University of California Press, 2003.
[8] CETIC.br / NIC.br. TIC Kids Online Brasil 2024.
[9] ARAÚJO et al. “O impacto da exposição a telas no desenvolvimento infantil”. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 11, 2024. Ver também recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2023.
[10] NEMER, David. Tecnologia do Oprimido: Desigualdade e o mundano digital nas favelas do Brasil. Vitória: Editora Milfontes, 2021.